Sobre a imprensa
ARTIGO DA REVISTA CARTA CAPITAL DE 06 DE JUNHO DE 2007
A DITADURA DOS CIFRÕES
EUA Seis grandes conglomerados decidem o que os americanos lêem, ouvem e vêem
POR ANA PAULA SOUSA
Os magnatas da mídia, eternizados no rosto e nos atos do Cidadão Kane (1941), de Orson, instalados no Imaginário e na realidade norte-americana desde fins do século XIX. Concentração de propriedade, poder desmedido e influência política por meio da informação, como se sabe, são tão antigos quanto a própria mídia. Mas algo mudou nos anos recentes.
“O que há de novo, a partir dos anos 80, num período já de acelerada globalização, é uma redução ainda mais dramática no número de conglomerados que dominam quase todo o fluxo de informação e entretenimento consumido no mundo”, diz o brasileiro Mauro Porto, professor do Departamento de Comunicação da Tulane University, em Nova Orleans. “Outra novidade importante é que grupos tradicionalmente de comunicação foram adquiridos por grandes conglomerados que atuam numa diversidade de áreas e não necessariamente têm tradição como empresas de comunicação:’
A mídia norte-americana, de acordo com especialistas, está nas mãos de seis conglomerados: News Corp, General Electric, Disney, Time Warner, Viacom e CBS. O processo de radical concentração teve início em meados dos anos 1990, na presidência de Bill Clinton. Mal se iniciou o processo, começou a esvair-se a independência dos jornais e emissoras de tevê.
Beneficiário direto do afrouxamento de regras para a aquisição de empresas produtoras e difusoras de conteúdo, o bilionário Rupert Murdoch, do News Corp., que engloba a ultraconservadora Fox News e, na América Latina, opera o serviço de satélite Sky/DirecTY, simboliza os “Kanes” destes anos 2000. A mais recente ofensiva de Murdoch foi a tentativa de comprar, por 5 bilhões de dólares, a Dow Jones, empresa de comunicações que inclui o prestigiado Wall Street Joumal.
Conforme avançam os grandes grupos no mundo das comunicações, minguam as tradicionais famílias que antes ergueram impérios. A família Ochsulzberger,
“O que estamos vivendo desde a era Clinton é uma continua deterioração das condições de trabalho para o jornalismo. Os poderes econômicos se apossaram do jornalismo para destruí-Io, para transformá-Io em algo falso e totalmente regido pela lógica econômica”, atesta Norman Solomon, escritor e jornalista norte-americano, diretor do Institute for Public Accuracy (IPA).
Para desenovelar a situação, é preciso, em primeiro lugar, ter em mente que, ao abraçar empresas jornalísticas, os conglomerados passaram a moldá-Ias com a fôrma de qualquer outro negócio. “A conseqüência direta disso foi impor aos meios de comunicação tradicional, como as três redes de televisão, ABC, CBS e NBC, a lógica comercial que orienta a organização dos grandes grupos”, anota Porto. Trocando em miúdos: a mídia deve pensar sempre em termos financeiros e deixar-se guiar pela bússola do lucro.
Tal opção resultou também na imposição de uma lógica particularmente restrita em termos monetários. “O orçamento dos departamentos de jornalismo foi reduzido. As primeiras vítimas do processo foram os correspondentes estrangeiros. Aos olhos dos novos acionistas das redes tratava-se de uma estrutura cara que não gerava grandes lucros é, por isso, foi cortada drasticamente”, conta Porto.
O descaso com os correspondentes é exemplar da lógica do mercado, ou seja, o dinheiro só deve ser posto no que dá dinheiro. Raciocínio semelhante se impõe quando os novos donos da mídia miram o público. “A produção de conteúdo dona do grupo que contém o New York Times, é uma das últimas sobreviventes. A grande pergunta é: como abordar jornalisticamente certos assuntos quando os interesses da corporação estão em jogo? A General Electric, por exemplo, controladora da NBC, fabrica também turbinas de avião.
Também é baseada em números. Devese oferecer algo que atraia o maior número possível de leitores e espectadores para, de novo, maximizar o lucro dos conglomerados”, considera o professor.
Não por acaso, os estudos de mídia apontam para uma acelerada banalização dos conteúdos oferecidos pela mídia. Nos Estados Unidos, ganham cada vez mais espaço as chamadas soft news, ou notícias leves. Porto diz que isso ficou particularmente claro no mercado da tevê local. “Se você assistir aos jornais locais em qualquer cidade, eles são idênticos. Não há uma diversidade nem de formatos, muito menos em termos da agenda do que esses jornais cobrem”, explica.
Solomon faz questão de pontuar o mesmo fenômeno. E vai além. “Em Nova York, São Francisco ou Chicago, eu não posso andar na rua e ter opções de um jornal feito pelas pessoas que são também as donas dele. Todo jornal é operado por uma grande corporação”, diz. “Temos apenas a ilusão da escolha. É mais ou menos como com os cigarros. Você tem diferentes marcas e tipos, mas nenhum deles é saudável:’ Solomon diz ainda ser possível encontrar uns poucos jornais de famílias ou de pequenas companhias que podem ser chamados de independentes. Mas eles se tornaram raridade.
O paradoxo mais evidente é que, à medida que aumenta a diversidade de canais e meios, reduzse a diversidade em termos de conteúdo. É como se uma só voz falasse por todos, quando não pelo governo.
A ausência de posicionamento crítico foi, por exemplo, a tônica de toda a cobertura da Guerra do Iraque. “Hoje virou lugar-comum falar do fracasso da mídia americana no debate sobre se os Estados Unidos deveriam iniciar uma guerra contra o Iraque, em 2003. É evidente que a mídia americana fracassou em desempenhar um papel fiscalizador naquele período”, anota Porto.
O professor observa que, no clima paranóico que se espraiou pelo país após os ataques de 11 de setembro, qualquer cobertura crítica da administração Bush poderia ser interpretada como falta de patriotismo, como ação contrária ao interesse dos Estados Unidos como “nação” e à segurança nacional.
Solomon lembra que, no caso das guerras, a falta de objetividade. é praticamente um dado. “Não há nada do que possamos nos orgulhar na cobertura das guerras nos últimos 50 anos, começando no Vietnã até hoje. Toda guerra tem sido acompanhada de maneira vergonhosa, muito distante dos conceitos de independência jornalística”, lamenta. Ele anota que, se neste momento há críticas à guerra, é apenas por causa das derrotas militares. “Se a guerra tivesse sido um sucesso militar, o fato de ter sido baseada em mentiras não preocuparia os jornalistas”, aposta.
De acordo com uma pesquisa conduzida por Thomas Patterson, professor de Harvard, a desastrosa cobertura da guerra e a ênfase no entretenimento têm produzido um efeito oposto ao buscado pelos conglomerados. Mais do que atrair espectadores, o novo desenho da mídia, ironicamente, acaba por afastá-Ios.
“O número de americanos que acompanham os telejornais noturnos e os grandes jornais tem diminuído, assim como tem diminuído o número de americanos que acham que a informação da mídia é imparcial ou de boa qualidade’: diz Porto.
Certamente, não é o acaso que explica o sucesso de um programa como The Daily Show, exibido no canal a cabo Comedy Central. O programa humorístico, apresentado por Jon Stewart, tem o formato de um telejornal, com um âncora e repórteres. Mas só conta mentiras. “É um dos poucos espaços na mídia americana de crítica ao discurso oficial. Ele não só desconstrói o discurso dos políticos, como é uma crítica ácida aos meios de comunicação tradicionais. Quer dizer, o país chegou num ponto em que precisa de um programa de notícias falsas para ter informações mais confiáveis”, provoca Porto.
Se ao público resta a piada, aos jornalistas independentes resta a periferia desse sistema. Segundo Solomon, o boicote a quem quer trabalhar sem seguir a cartilha das corporações e sem abaixar a cabeça para os interesses políticos é, como tudo, econômico. “Hoje, a regra aqui é simples. Quanto mais os jornais pagam, menos você fala. Quanto mais você quiser falar, menos você vai ganhar:’