Palavras, bravatas & gravatas.
Tenho evitado de registrar aqui o noticiário do cotidiano japonês, daqueles fatos consequenciais de uma economia em queda livre.
Os jornais daqui estampam diariamente crimes de todos os níveis, mas o conteúdo é sempre raso, banal e me perdoem o desatino, suburbano. De brasileiros que assaltam lojas de conveniência, japoneses que matam por estresse, hoje mesmo, em Kyoto, um jovem que atropela um cidadão e o arrasta por 400 metros, matando-o, é lógico. Tudo qui nem em Belfort Roxo ou em Toa Baja.
Acontece porém que nesta semana ocorreu um inusitado e típico desvario coletivo da sociedade japonesa.
Gostaria de anotar antes, para o brasileiro desavisado, que guardadas as proporções, o respeito e o tratamento dado pela imprensa e orgãos de comunicação japonês ao cidadão local não se equipara em nada ao desserviço que presta a imprensa no Brasil aos brasileiros.
Cidade de Sakaide, Província de Kagawa, final da tarde do dia 15, quinta-feira.
As irmãs Akane e Ayana visitam a avó que mora próximo da sua casa para passar a noite como em muitas outras ocasiões.
Manhã do dia 16, sexta-feira.
A mãe de Akane e Ayana vai buscar as filhas para irem à escola e não encontram ninguém na casa da avó. Casa esta, que está toda desarrumada e com rastros e manchas de sangue.
Restou o mistério que se estenderia por uma semana, até a segunda-feira dia 26.
Neste interim, respondia à imprensa, o pai das meninas. Cidadão simples, de pouco vocabulário, e este pouco, regional. Se regional, direto, reto e rude. Rude à terceiros, porque a palavra quando regional não necessita subterfúgios e cálculos assimétricos. Porque quando regional conversamos com o igual, sem esconder nada.
Gordo, cabelos raspados e barba por fazer, ele relembrava aos jornalistas sedentos de gafes, que às 2 da madrugada ele avistou pela janela da sua casa a bicicleta da mãe estacionada. Bicicleta esta que sumira junto com toda a família. Ora, ora. Quem olha pela janela as duas manhãs seja o que for?
Poucas palavras, barba desleixada, figura desolada e olhando pela janela às 2 da manhã. Bravatas…
Foi o que entendeu 9 entre 10 japoneses. E a imprensa forçando perguntas mal-educadas ao que o gordo não se conteve:
- Vocês querem insinuar que eu tenho envolvimento com o desaparecimento da minhas filhas e da avó delas??? - teve que se desvencilhar das infâmias.
Mas o maior perigo dos japoneses é este quesito. Por longa data, todos eles, absolutamente todos, cresceram portando seus chapeuzinhos amarelos do uniforme escolar, viram a mesma coisa, leram, estudaram, concluíram, souberam e se sensibilizaram nas mesmas páginas do material escolar. Uniformemente. Pensam iguais, agem iguais. Se mérito desta sociedade é outro assunto. Mas…
Ao final do dia 26, a polícia japonesa prende um suspeito que confessa o crime e o caso parte para o desvendamento. Tratava-se de um cunhado da vítima e as causas estão sendo averiguadas mas de antemão eu lhes confirmo, são suburbanas.
Amanhece o dia 27 e a imprensa rapidamente reedita todo material em que aparecia o desastroso e rude gordo. Agora a TV mostra um sujeito másculo, sensível e extremamente forte e grandioso.
Eu aconselho aos meus leitores a se dirigirem a uma loja de ¥100 ienes e comprarem uma gravata. Quando dos holofotes deste nosso mundo, vizinhos, parentes ou seja lá quem for, adentrar em suas casas, façam a barba, mulheres às maquiagens, coloquem a gravata, mulheres, um ternozinho; cuidado com o que diz e paciência. Seja você vítima ou algoz, que aqui a aparência é primordial.