Aprendi a não comparar culturas. Parte 1
Outro dia fui apresentado para um chinês, engenheiro químico, que veio ao Japão nos início dos anos 80 como estudante bolsista e havia casado com uma japonesa e na época já contava dois filhos.
Ficamos amigos e trocamos idéias… Dizia ele que havia 11 anos que não retornava ao seu país. (Retornar para China, meus amigos, é complicado. Tão perto, mas a China como o Brasil é um país continental. E fora a questão geopolítica, há a questão política-política.)
Na ocasião, eu tinha uns três anos de Japão sem retorno. E eu lhe disse:
- Mas você telefona pra sua família, não é mesmo?
E ele me disse:
- Não! Na região em que minha família vive não tem telefone então eu escrevo toda semana.
- Escreve para a sua fámília??? Desde quando você veio pra cá??? - perguntei.
Ele como quem vai pra padaria me diz:
- Já fazem 11 anos. São caixas e mais caixas de sapatos guardadas.
Na época eu me penitenciava por não escrever para a minha família.
E o minuto ao telefone na ocasião beirava os 400 ienes por minuto. Hoje custa menos de um décimo deste valor.
Fui me embora admirando a fortaleza chinesa. Era só o que eu sentia.
Contei a um amigo japonês e ele me disse:
- Ah, eles (os chineses) tem uma força interior incomum. São capazes de coisas impensáveis.
No ano 2002, veio um estagiário chinês na empresa em que eu trabalhava e fiquei encarregado de lhe ensinar o serviço. O rapaz era engenheiro mas não falava outra língua senão o chinês. (Depois soube também que um engenheiro chinês não necessita saber english para entender eletronics. Eles detêm a sua própria tecnologia. Não são tupiniquins.)
Chama-se Cho (lê-se Tyô) e hoje deve estar feliz e realizado nas proximidades de Shangai. Ficou seis meses e trabalhamos juntos. Passeamos, convivemos, nos tornamos amigos. Até acabei aprendendo algumas palavras em chinês.
Num primeiro momento eu pensei, como eu vou me comunicar com ele? Ele ficou me acompanhando e vendo o que eu fazia.
De quando em quando, uma atitude compreendida pelo outro e um sorrisinho… E fomos indo…
Num intervalo, eu quis explicar a ele que eu não era japonês.(Para mim é um assunto essencial em todo início de conversa, principalmente com o estrangeiro. Por uma série de razões que numa outra oportunidade gostaria de explicar melhor.) Mas como dizer-lhe isto???
O ideograma japonês é igual ao utilizado no chinês. Sendo que os signicados e leitura se divergem. Mas muitos kanjis (ideogramas) são semelhantes tanto no signicado e um pouquinho só na leitura.
Escrevi japonês (日本人) num papel e gesticulei que isto eu não era. Ele ficou sem entender. E rapidamente, desenhei uma versão de um mapa do mundo e apontei o Brasil. Ele pegou o papel da minha mão virou de ponta cabeça, pra esquerda, pra direita e tentava me expressar agora….
- Ê….ê…Hum….Ê…
- Lôo.. Hum…Ê..
E eu pensava:
- Lo…Que lô??? Lô???
- Loo…loo…Loo…Loo Naudo.!!!! - ele disse como quem conseguiu dar uma espirrada.
Aí caiu a ficha…Ronaldo…O gorducho…(Sem ser o Ronaldinho…O ano era 2002.)
E ele repetia:
- Baashi, Baashi…”Brazil, Brasil em chinês.”
- Ah, Lonaudo, Lonaudo eu disse, feliz da vida por ter conseguido me comunicar com o chinês.
E perplexo pelo inusitado denominador comum que encontramos. (”Eu disse gorducho???Retiro o que eu disse. O caro é um embaixador do Brasil, divulgando a nossa cultura pelo mundo!!!”)
Mas, daí eu, mais embaixador que o grande jogador Ronaldo, escrevi a palavra 多い (lê-se ooi) “muitos” e gesticulei…
- Baashi, Lonaudo e apontava o ideograma, muitos!!!!! Brasil tem muitos Ronaldos!!!!
- E ele sorria…Não acreditando muito.
Será que ele sabia que era mentira???
Outra hora tem a continuação desta conversa…

Muito tempo atrás (1989) fui trabalhar na linha de produção de peças automotivos e naquela época ninguém, absolutamente ninguém, portava um simples relógio no pulso. Para a saída nos intervalos de descanso ou para as refeições ouvia-se atentamente o sinal dos alto-falantes. Naquela época, mais do que agora, o japonês se entregava ao trabalho, doando o seu horário e a sua alma. Creio que ainda hoje existam locais de trabalho com estas características em relação ao horário. Eu não havia notado no detalhe do relógio até que um japonês flertou-me acusando à queima-roupa: “Você é o único que usa um relógio no pulso na hora do trabalho!” Pensei com meus botões: “Uso e daí?!?!?”