Aprendi a não comparar culturas. Parte 1

Darcy Suzuki | Recordar é viver | Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

Outro dia fui apresentado para um chinês, engenheiro químico, que veio ao Japão nos início dos anos 80 como estudante bolsista e havia casado com uma japonesa e na época já contava dois filhos.

Ficamos amigos e trocamos idéias… Dizia ele que havia 11 anos que não retornava ao seu país. (Retornar para China, meus amigos, é complicado. Tão perto, mas a China como o Brasil é um país continental. E fora a questão geopolítica, há a questão política-política.)

Na ocasião, eu tinha uns três anos de Japão sem retorno. E eu lhe disse:
- Mas você telefona pra sua família, não é mesmo?
E ele me disse:
- Não! Na região em que minha família vive não tem telefone então eu escrevo toda semana.
- Escreve para a sua fámília??? Desde quando você veio pra cá??? - perguntei.
Ele como quem vai pra padaria me diz:
- Já fazem 11 anos. São caixas e mais caixas de sapatos guardadas.
Na época eu me penitenciava por não escrever para a minha família.
E o minuto ao telefone na ocasião beirava os 400 ienes por minuto. Hoje custa menos de um décimo deste valor.
Fui me embora admirando a fortaleza chinesa. Era só o que eu sentia.
Contei a um amigo japonês e ele me disse:
- Ah, eles (os chineses) tem uma força interior incomum. São capazes de coisas impensáveis.

No ano 2002, veio um estagiário chinês na empresa em que eu trabalhava e fiquei encarregado de lhe ensinar o serviço. O rapaz era engenheiro mas não falava outra língua senão o chinês. (Depois soube também que um engenheiro chinês não necessita saber english para entender eletronics. Eles detêm a sua própria tecnologia. Não são tupiniquins.)

Chama-se Cho (lê-se Tyô) e hoje deve estar feliz e realizado nas proximidades de Shangai. Ficou seis meses e trabalhamos juntos. Passeamos, convivemos, nos tornamos amigos. Até acabei aprendendo algumas palavras em chinês.

Num primeiro momento eu pensei, como eu vou me comunicar com ele? Ele ficou me acompanhando e vendo o que eu fazia.
De quando em quando, uma atitude compreendida pelo outro e um sorrisinho… E fomos indo…

Num intervalo, eu quis explicar a ele que eu não era japonês.(Para mim é um assunto essencial em todo início de conversa, principalmente com o estrangeiro. Por uma série de razões que numa outra oportunidade gostaria de explicar melhor.) Mas como dizer-lhe isto???

O ideograma japonês é igual ao utilizado no chinês. Sendo que os signicados e leitura se divergem. Mas muitos kanjis (ideogramas) são semelhantes tanto no signicado e um pouquinho só na leitura.

Escrevi japonês (日本人) num papel e gesticulei que isto eu não era. Ele ficou sem entender. E rapidamente, desenhei uma versão de um mapa do mundo e apontei o Brasil. Ele pegou o papel da minha mão virou de ponta cabeça, pra esquerda, pra direita e tentava me expressar agora….
- Ê….ê…Hum….Ê…
- Lôo.. Hum…Ê..
E eu pensava:
- Lo…Que lô??? Lô???
- Loo…loo…Loo…Loo Naudo.!!!! - ele disse como quem conseguiu dar uma espirrada.
Aí caiu a ficha…Ronaldo…O gorducho…(Sem ser o Ronaldinho…O ano era 2002.)
E ele repetia:
- Baashi, Baashi…”Brazil, Brasil em chinês.”
- Ah, Lonaudo, Lonaudo eu disse, feliz da vida por ter conseguido me comunicar com o chinês.
E perplexo pelo inusitado denominador comum que encontramos. (”Eu disse gorducho???Retiro o que eu disse. O caro é um embaixador do Brasil, divulgando a nossa cultura pelo mundo!!!”)

Mas, daí eu, mais embaixador que o grande jogador Ronaldo, escrevi a palavra 多い (lê-se ooi) “muitos” e gesticulei…

- Baashi, Lonaudo e apontava o ideograma, muitos!!!!! Brasil tem muitos Ronaldos!!!!
- E ele sorria…Não acreditando muito.
Será que ele sabia que era mentira???

Outra hora tem a continuação desta conversa…

Uma palavra para se pensar!

Darcy Suzuki | Atualidades | Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Muito se tem dito, documentado, registrado e absorvido pela grande maioria das pessoas referente ao conceito de uma palavra que eu sempre evito de usar.

Infelizmente até no Wikipedia já consta a verbete dekassegui.

Chamam a de fenômeno, indivíduo, grupo, movimento, pessoa, causa, causadora, sujeito, muitas vezes, protagonista, noutra vezes, um resultado.

As vezes, pronuncia-se déca-ségui, noutras, dêca-ségui. E é livre mudar o gênero, pode ser tanto, os dekassegui, quando designam o grupo, e, o dekassegui, quando é o indivíduo.

O pior é que esta nomeclatura é irresponsável ao meu ver, porque ela não incorpora um problema, não abraça.
Nomeia a emigração com um termo estrangeiro transferindo maquiavelicamente a responsabilidade a outrem.

Na minha opinião, é um equívoco, um deslize, um conceito que pode estar próximo da consolidação do seu significado, porque o maior interessado e o próprio agente que há de acatar as influências deste conceito errôneo não se encontra no país.

Etimologicamente, o termo dekassegui 出稼ぎ no japonês não se trata de um agente. A palavra designa um ato, uma atitude, uma ação, dois verbos. A conexão do ato de sair (deru/出る) e o ato de laborar (kasegui/稼ぎ).
Nota: Não se trata do termo de lucrar. Significa a conjugação do ato de sair e trabalhar pela subsistência.

Na língua japonesa quando esta palavra designa um indivíduo, acrescenta-se o agente ao termo. Dekassegui Roudousha (出稼ぎ労働者) para o trabalhador que se desloca da sua terra natal.
Nota: Há um termo recente: Dekassegui Freeter (出稼ぎフリーター) para o trabalhador informal (o agente) que se desloca da sua região de origem em busca de trabalho. Jovens japoneses na grande maioria.

Pois bem. No conceito (preconceito) que nos denominam dekassegui, nem sujeito somos. Nem somos párias, escravos ou mercenários. Somos dois verbos em ação.

Compreendo, porém, e concordo que o termo dekassegui é menos pejorativo que dizer “roudousha”, termo este ligado ao trabalho braçal e ao esgotamento físico. Paradoxalmente, o trabalhador estrangeiro no Japão é mais “roudousha” do que um admirável dekassegui.

Acertadamente, na recente notícia repassada pela Folha e Agestado sobre o crime de uma família em Yaizu foi noticiada como um caso entre nipo-brasileiros. (Talvez pela confusão que poderia causar o uso da expressão de que um dekassegui havia matado outros dekasseguis.)

Um feliz contraponto é saber de muitas pessoas sensatas que sem saber nada disto, ou pensar em profundidade sobre isto, evitam e se sentem embaraçadas em usar o termo. Já ouvi políticos, professores, estudiosos, em encontros, congressos, seminários, com os pomposos nomes de tralalá do dekassegui, dissertarem suas idéias sem citar uma única vez a palavra.

Mas, infelizmente mesmo a imprensa e alguns orgãos governamentais já incorporaram o vocabulário e citam que “os dekassegui são campeões de remessa” ao Brasil.

O termo é pejorativo, equivocado e acho uma insensatez.

E sinto cheiro de pão sendo assado na fornalha…

Estamos em pleno Natal!!!

Darcy Suzuki | Adendos | Domingo, 24 de Dezembro de 2006

natal.jpg
Luzes para todos!!!

O tempo passa e o mundo muda.

Darcy Suzuki | Recordar é viver | Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

images.jpegMuito tempo atrás (1989) fui trabalhar na linha de produção de peças automotivos e naquela época ninguém, absolutamente ninguém, portava um simples relógio no pulso. Para a saída nos intervalos de descanso ou para as refeições ouvia-se atentamente o sinal dos alto-falantes. Naquela época, mais do que agora, o japonês se entregava ao trabalho, doando o seu horário e a sua alma. Creio que ainda hoje existam locais de trabalho com estas características em relação ao horário. Eu não havia notado no detalhe do relógio até que um japonês flertou-me acusando à queima-roupa: “Você é o único que usa um relógio no pulso na hora do trabalho!” Pensei com meus botões: “Uso e daí?!?!?”

Nem foi por isso, mas depois parei de usar no pulso e deixava o relógio em cima da máquina enquanto trabalhava. Pouco antes do intervalo das refeições todos vinham conferir quantos minutos faltavam para a correria até o refeitório.

Atualmente, neste mesmo local, todos, absolutamente a grande maioria, usam relógios de pulso nas linhas de produção. Hoje eu acho um perigo!

Quando assisti o filme “The Net” (1995) com a Sandra Bullock… Um entregador da Federal Express (FEDEX) vem lhe entregar uma encomenda e diz: “Bela morada!” reparando na casa enquanto colhe a assinatura da beldade Bullock. Eu pensei: “Quantos anos vai demorar para que o japonês chegue a esta petulância de dizer simpática e espontaneamente uma idéia que lhe vem a cabeça sem se preocupar com o que os outros pensam?”

Hoje de tarde, o “gato preto” (a Fedex japonesa) trouxe uma encomenda que eu havia comprado a pedido de um amigo…

No boleto da transportadora o conteúdo estava especificado motores e acessórios, e o entregador “gato preto” me diz antes de ir embora: “O que tem aí dentro???”…Que atrevimento!

Era uma mini moto com motor de dois tempos.

O mundo gira e o Japão roda!!!